terça-feira, 7 de abril de 2009

Quarto 207

Branco: Sensação enorme de pureza e paz. Mas ele não sentia nada disso. O branco só trazia a sensação do desespero e do aprisionamento. Olhava impotente para todos os lados e os grilhões invisíveis o atemorizavam. Quatro paredes brancas e vazias. Somente as rachaduras diferenciavam o ambiente quase homogêneo. Também havia um quadro. Nem grande, nem pequeno. Médio mesmo, desses que ninguém repara. Talvez feito em série por um artista qualquer. Um desenho simples. Uma mesa e um vaso de flor, nem era tão colorido assim. Ele passava horas observando a tela. Imaginava a vida daquele pintor. Será que ele sabia o destino dos seus quadros? Acabar em uma parede friamente branca, sem vida. Um artista merece mais que isso, merece reconhecimento. Ele pensava enquanto os dias se arrastavam. Nenhuma visita no primeiro mês. Quantos ainda passariam para a total liberdade? Ele indagava se consegueria sobreviver ao terrível teste da sanidade. O maldito branco que o atormentava agora era a salvação. Os homens de branco cumprindo o seu dever. Mais remédios e um pequeno sinal de avanço. Até quando? Aquela cor não saía de sua pobre cabeça. Aquela que origina todas as outras cores e que antes trazia luzes e brilho. Hoje, somente o desespero. Não tinha mais esperanças e deixara há tempo de sonhar com a cura. O que esperar do mundo e daqueles que julgava como amigos? Ele agora está sozinho. Conta apenas com as regras do lugar. Refeições com hora marcada. Duas mulheres com belos sorrisos passam a falsa sensação de tranquilidade. "Vai ficar tudo bem", elas dizem para o confortar. Mas ele sabe que não será assim. Ele conhece o seu coração e as suas vontades. Prefere ficar calado a frustrar aquelas belas mulheres de branco, que apenas fazem o seu papel. Ora uma velha senhora, cansada no turno da noite. Ele já ouviu várias vezes que falta pouco tempo para a aposentadoria. De manhã, uma jovem vem trazer o café e abrir a janela. Ela também tem esperança, mas não de descansar. Luta ansiosa por um futuro promissor. Dois empregos diferentes e a tão sonhada faculdade. Último semestre de estágio. Depois a formatura e o crescimento profissional. Expectativas. E para ele, o vazio. Nem trabalho, nem diversão. Nada. Ele segue deitado enquanto a vida corre. Destino merecido ou oportunidade negada? O pensamento volta mesmo contra a vontade. Poderia ser diferente. Talvez se ele quisesse enxergar as cores de verdade. Mas ele escondia o azul do céu com as cortinas do apartamento. Fugia sempre do brilho do sol. Deixara de suar com o trabalho. Não via há tempo o verde da grama do parque que costumava ir com os amigos da faculdade. Perdera até o vermelho vivo do batom da noiva. O preço de uma escolha. "Ele quis assim", todos diziam. Ele sabe que escolheu o branco. Preferia imaginar as cores psicodélicas a viver as foscas cores da realidade. Mas toda viagem tem sua partida e sua chegada. Começo e fim. E o dele é lá. Naquele quarto branco, com poucos móveis, sem televisão. Uma cama simples com lençóis impecavelmente brancos. O quadro e vários livros, todos já lidos. Ele quer mesmo é ler o que está naquela ficha branca, pregada nos pés de sua cama. Do seu campo de visão, dá apenas pra perceber que o papel branco, também é grande e dá a impressão de dureza. Talvez um tipo de papelão. Imaginar, é só isso que ele faz. Imagina o que está fora do quarto, imagina a vida que poderia ter levado. Não consegue não criar suposições. Não há mais certezas, é tarde demais.
*Texto escrito em 06/04/2009. Saí um pouco da linha da poesia, talvez venham mais textos neste estilo.

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