quarta-feira, 13 de maio de 2009

Carta a Renato Russo

Aloha Renato,

Perdoe-me, primeiramente. Confesso que te desobedeci. Deixaste tão claro, tão certo. E assim mesmo, chorei. Chorei quando foste embora, e ainda lamento todas as noites. Justo você, a voz da legião urbana. Legião de jovens, hoje calados, sem sonhos, nem ideais. Mas ainda é cedo pra dizer que tudo foi tempo perdido. Pergunto-me então. Por que voaste pra tão longe?

Ah, Renato... Tinhas mesmo que me negar um dia perfeito? Poderíamos passear em Boa Vista, Angra dos Reis ou em uma metrópole qualquer. Mas não, deixaste-me só. A invejar, mesmo que quase sem querer, os teus personagens eternos. Não sou Mônica, nem Clarisse. Sou só alguém que ainda espera a tempestade passar.

Talvez um dia a gente se encontre. Aí, quando você voltar, subiremos a montanha mágica e sentiremos lá de cima, todo o vento do litoral... Desenharemos os barcos com pedaços de giz. Por enquanto, estou colhendo as flores do mal. Hoje a noite não tem luar e continuo vivendo no teatro dos vampiros. Peço que não te demores, Renato. Voltes antes das seis para que aproveitemos toda a noite ainda. Pelas ruas, fugindo dos soldados.

Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? O mundo anda tão complicado, meu caro. Acho que estamos perdidos no espaço. Estamos lendo o teorema dos índios. Juventude sem escola, crianças mortas. Pais e filhos vivendo feito Daniel na cova dos leões. Há bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo, mas agora nem sabemos que país é este. A nova ordem é o bom senso. A doce música urbana está desarmônica. Barulhos nada melódicos.

Escrevo-te para me escapar o tédio, a química das quatro estações. Há tempos vivo em duas tribos. Metal contra as nuvens das sete cidades. Espero que essa sereníssima carta chegue às tuas mãos antes do sol bater na janela do teu quarto. Escrevo direto do espírito, a chave para o redescobrimento do Brasil.

Não peço nada para o meu sagrado coração. Só peço que os anjos te encontrem com esses pedaços de papel, talhados por estiletes de tamanhos diferentes. Só por hoje, quero que eu seja a fonte de teu ser. Que ainda nos encontremos em mais 29 vidas. Contaremos nossa história no livro dos dias e ainda vamos fazer um filme. Talvez uma comédia romântica de toda essa perfeição.

Envio a você algumas linhas de uma grande cumplicidade. Apenas uma parte dos mil pedaços que ainda guardo. Mais uma vez, com a certeza que estarás um dia esperando por mim.


Com amor imperfeito
Andressa

1º de julho, dezesseis, 1965. (O dia em que os marcianos invadiram a Terra)
Monte Castelo (A terra do equilíbrio distante)
Via-láctea (Uma outra estação)

3 comentários:

  1. Emoção!!!
    LUZ e sentido e palavra...
    Palavra é o que o coração não pensa...
    Foi dificil não deixar as lágrimas correrem ao ler essa carta,Renato, suas letras, vc e suas letras, 3 paixões juntas, vc renato e as letras, indidcritivel sensação diante de algo tão belo...
    Seu Blog está lindo, com a mesma belza do seu coração.
    "Se vc quiser alguém pra ser só seu é só não se esquecer eu estarei aqui"
    Parabéns!!!!
    Te amo!!!!

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  2. Lindo demais! Belíssimas palavras. Também pudera, né?! Escritas para o maior "domador" delas!

    Bom saber que existem pessoas que também admiram muito esse graaaaande artista!
    E mesmo sendo tão clichê: Renato Russo pra sempre!

    Parabéns pelo texto!

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  3. Como vc sabe não conheço muitas coisas sobre esse grande cara que se chama "RENATO RUSSO", mas de um tempo pra cá, por influência de alguns bons amigos, passei a ter uma grande admiração por ele e suas músicas. Esta carta transmite muita emoção e imagino o brilho nos seus olhos ao termina-la, não dúvido das lágrimas terem corrido pelo teu rosto.
    Parabens Dessa, aproveita seu tempo criativo pra prolonga-lo pra resto de sua vida, aproveita esse talento que tem com as palavras.
    Beijão.

    TE AMO MUITO!!!

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