sexta-feira, 1 de maio de 2009

Há algum tempo...

Não foi ontem, nem mês passado. Já faz um bom tempo que eu via aquelas coisas. Parece loucura, eu sei. Mas eu não estava aqui, não nesse mundo. Acho que eu morava em alguma página de um bom conto de fadas. Talvez eu tenha passado uma estadia no “Sítio do Pica-pau Amarelo”, pois me lembro muito bem do “minotauro”. Fora uma difícil luta, aquela dentro do labirinto. Não, não. Um livro não é um bom lugar para se morar muito tempo. Já sei, eu estava dentro da TV. Direto do “Mundo da Lua” pra dentro do “Castelo Rá-tim-bum”. Mais cores, mais efeitos. Vida agitada essa...
Eu via fadas, gnomos, unicórnios. Muitos seres habitavam o meu país, muito antes de eu conhecer “Harry Potter”. Subia em árvores, brincava na terra. Guerras? Só de laranjas... Ah, a minha bicicleta. “Eu quero uma Caloy rosa, mãe. Daquelas que tem cestinha na frente”. Incrível como ela não entendia que a cesta era essencial. “Como assim pra que eu preciso de uma cesta, mãe?”. Será que ela não sabia mesmo? Responda então, onde eu iria guardar as minhas maçãs colhidas? Onde eu levaria o meu pote de ouro pra entregar aos meus amigos da vizinhança? E os meus livros? Meu Deus, o que faria eu quando me cansasse e deitasse em alguma grama no meio do caminho? Ah, mãe... Como você é ingênua...
Que saudade da minha casa. Não do chalé, por enquanto. Saudade da minha casa, a minha mesmo. Os meus móveis de madeira feitos pelo meu avô português. Tinha mesa, um jogo de cadeiras. Sofá, cama, e até televisão. Horas e horas brincando no meu lar. Imaginava tanta coisa, muitas situações inteiras. Aliás, hoje não é tão diferente assim. Só mudaram os personagens...
Personagens de histórias encantadas. Cada dia, uma diferente. Antes que eu dormisse, meu velho pai sempre me contava alguma. “Carmelo, o camelo”. “O professor Tucano e seus alunos”. Que imaginação, hein? Você teria um bom futuro como escritor infantil. Mas não, nenhuma história por escrito, nada fora registrado. A mágica acontecia quando as palavras saíam de sua boca... Bastava isso!
Meus amigos, os livros. Hobbie conhecido bem cedo, 5 ou 6 anos de idade. Apaixonei-me pelo “Pequeno Príncipe” quando nem ao menos conhecia o significado da palavra “relva”. Mais uma vez, a ajuda do meu incentivador. Meu pai, meu dicionário. Nossos passeios pela Biblioteca Municipal. A ajuda essencial da eterna amiga Genilda. De três livros permitidos por vez, nós levávamos dez para casa. Às vezes, doze. “Ana Maria Machado”, “Monteiro Lobato” e minha paixão por “Ziraldo”. Meu melhor amigo? “O menino maluquinho”, claro.
O sítio é um caso a parte. Muitas tardes assistindo à primeira versão, na companhia ainda de Suzana. Mulher de paciência, viu?! E muita, muita... Eu, criança hiperativa. Ela, destinada impostamente a cuidar de mim. Coitada... De alguma forma, sei que ela participava do meu mundo, das minhas histórias. A minha agenda programada, em que as únicas atividades eram andar em volta de minha casa. Os banhos no tanque, as experiências científicas aprendidas com o amigo “Beakman”, os machucados, as “artes”.
“Menina arteira”, dizia ela. Vó Cândida, a mulher mais bela desse mundo... Cartas de uma criança a uma avó que desconhecia as letras. “Feliz dia dos avós”, “Obrigada por fazer doce de leite para mim”, “Eu te amo”. Frases curtas, frases do coração. É, vó. A sua neta mais velha ainda gosta de “artes”. Vive hoje da poesia e dos textos. Arte escondida, camuflada, implícita. Agora: muitas palavras, frases longas. Sem a beleza da ingenuidade infantil, mas ainda com a mesma espontaneidade, eu garanto.
Penso hoje nesse tempo que se foi. Nostalgia, que bobeira! As memórias ainda duram no coração, mas as palavras são as formas de mantê-las vivas e úteis. Letras, palavras, frases, meu primeiro livro. “A máquina do tempo e o mundo do duende da luz”. Título pretensioso, não é mesmo? Um mundo só meu, um mundo inventado. Um dia alcanço Tolkien e o Condado.
Vou-me embora agora. Não para “Pasárgada”, pois hoje em dia, não tenho mais amigos reis. Não viro detetive, nem tento desvendar os mistérios de “Marcos Rey”. A “Série Vaga-lume” e a “Tia Nilza”. Professora de português, uma grande utilidade. Sim, os sonhos são meus. Mas desde esse tempo quase esquecido, tenho no meu caminho muitas pessoas. Pequenos gestos que serão lembrados para sempre. Adultos que acreditavam nos meus ideais, nas minhas palavras. Hoje, escolhi as mais simples. Nada poético... Sem rimas, nem as métricas do texto jornalístico. Regras deixadas para trás. Não é uma dissertação. São frases puras, soltas. Pensamentos e lembranças. Como sempre, uma viagem. A uma terra distante, em um tempo diferente. Minha infância, meus amigos de sempre. Apenas um “Muito obrigado” pelo incentivo constante. Ainda tenho sonhos sim, podem ficar tranquilos. Meus livros ainda serão publicados. Por enquanto, ainda muito amor. Continuo atendendo a tudo sonhando, escrevendo. Divagações? Muitas... Todas vindas do coração.

3 comentários:

  1. retribuindo a visita.
    otimo o texto.

    Um mundo
    uma imaginaçao
    um jeito de monstrar a realidade

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  2. É sempre bom poder guardar um pouco da magia no coração... é o que sobra na verdade...

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  3. "É sempre bom poder guardar um pouco da magia no coração..."

    E é essa magia que deixa mais saudades. Você fez parte do meu conto de fadas, e foi parte essencial dele. Nenhum jamais foi esquecido, por que o nosso haveria de ser?

    Te amo, Dessa!

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