terça-feira, 23 de novembro de 2010

"Urbana Legio Omnia Vincit"

O Fantástico apresentou no último domingo, imagens inéditas dos bastidores da gravação do último disco da Legião Urbana, seis meses antes da morte de Renato Russo. Gravadas pelo baterista Marcelo Bonfá e sua esposa, as cenas revelam um Renato diferente. Além do poeta atormentado por crises, alcoolismo, e na época já por saber que tinha AIDS, o roqueiro também brinca, dança, reclama, e se mostra mais vivo do que nunca.

No ano em que Renato faria 50 anos, e que também se comemora 14 anos de sua morte, e por consequência, do fim da Legião, a banda é tema de dois longas-metragens em produção: “Somos tão jovens”, de Antonio Carlos da Fontoura, e “Faroeste caboclo”, de René Sampaio, e também tem sua discografia inteira relançada. Os oito álbuns foram remasterizados nos estúdios Abbey Road, em Londres, e voltam às lojas em edições de colecionador, com embalagem digipack, 80 fotos inéditas e textos exclusivos, além de versões em vinil.




No ano passado, somando todos os discos da banda, entre coletâneas e gravações ao vivo, e os trabalhos solos do Trovador, como Renato Russo era conhecido, foram vendidas 250 mil unidades. De acordo com informações do gerente de marketing da EMI Music, gravadora responsável pela comercialização do grupo, são 20 mil cópias vendidas por mês. Desde o primeiro disco são 14 milhões de cópias vendidas de toda a obra.

Também foi lançado o livro “Como se não houvesse amanhã”, organizado por Henrique Rodrigues e que reúne vinte contos inspirados em músicas da Legião Urbana. Rodrigues trabalha com projetos de incentivo à leitura, e como todo escritor, segundo ele, “pesca” motes para possíveis histórias em todos os lugares. Foi assim, ouvindo o disco da banda enquanto dirigia para o trabalho, que teve a ideia de criar algo a partir daqueles versos. A música escolhida foi “Acrilic on Canvas”, do disco “Dois”, “uma letra extremamente elaborada, com uma alegoria belíssima entre artes plásticas e a figura da mulher. As metáforas são lindas e a música tem um tom que me agrada muito. Gosto dessa mistura de linguagens, então ao fazer o conto eu estaria brincando com as três: artes plásticas, música e literatura”, diz.

Tanto sucesso, por tanto tempo. Em meio à efemeridade da música brasileira, Renato e a Legião Urbana se afirmam por gerações. Henrique compara a Legião com os Beatles. “Com o passar do tempo e esse interesse contínuo, arrisco dizer que as músicas estão provando cada vez mais que são atemporais e conseguem comunicar algo no íntimo das pessoas. Mais do que uma banda pop, a Legião conseguiu se tornar um sentimento compartilhado”.

“Urbana Legio Omnia Vincit”, a frase que estava presente em todos os discos da Legião Urbana (com exceção do ultimo CD da carreira, “A Tempestade”) era uma adaptação da frase do ditador romano Julio César, “Romana Legio Omnia Vincit” que significa, “Legionários Romanos a tudo vencem”. Acreditar que se possa vencer a tudo talvez seja pretensão, devidamente justificada pela genialidade do trovador solitário. Porém, Renato sempre soube que não seria o tempo, nem a morte que o deteriam. Suas letras e suas canções, protestos, dores, confusões e belezas de sua história ainda estarão presentes em milhões de fãs brasileiros, como eu.